Cliente, Paciente ou Doente?

psicologia-clinicaA literatura internacional nem sempre é consensual quanto à designação atribuída a quem usufrui da prestação de serviços de psicologia, utilizando ora o substantivo “patient” ora “client”.

No código deontológico da Ordem dos Psicólogos Portugueses é utilizado o designativo “cliente” para se referir a “qualquer pessoa, família, grupo, organização e ou comunidade com os quais os/as psicólogos/as exerçam atividades no âmbito dos seus papéis profissionais, científicos e ou educacionais enquanto psicólogos/as.”

Embora para muitos a diferença entre “cliente”, “paciente” ou mesmo “doente” seja menosprezável – há mesmo a história (que circula na Internet) de um psicólogo estrangeiro que conta que quando perguntou aos utilizadores dos seus serviços, como desejavam ser tratados, todos lhes responderam que era indiferente, desde que fossem bem atendidos – a grande questão, mais do que terminológica, reside na atitude através da qual estes são encarados pelo psicólogo.

Em todas as áreas da psicologia que não lidam com a saúde e a clínica, a resolução deste problema parece ser relativamente simples e a melhor opção parece ser de facto termo “cliente”: Certamente nenhum psicólogo social encara os utilizadores dos seus serviços como “doentes”. É portanto nas outras áreas que esta distinção terminológica assume maior relevância.

Por trás do conceito de “doente” estará a ideia, mais próxima do modelo médico, da psicologia como forma de tratar doenças (nomeadamente mentais), o que como vimos é bastante redutor, até porque a psicologia não se resume à clínica. Por esta razão, não parece ser, talvez, o melhor termo a utilizar.

Nas antípodas estará a utilização do termo “cliente” que visa não só afastar qualquer conexão com a doença como reconhecer a liberdade, respeito e autonomia do sujeito. Trata-se de uma visão humanística que encara o utilizador como alguém que sabe o que é melhor para ele, que nos parece bastante meritória. No entanto, enquanto na língua inglesa existe uma distinção entre “client” e “customer”, em português ambos os conceitos se vêm traduzidos para a mesma palavra: cliente. A par das virtudes citadas (que se associam o termo “client”), receia-se que o termo “cliente” (se retrovertido para “customer”) possa tornar a relação terapêutica (visada na psicologia clínica e sobretudo na psicoterapia) numa relação comercial, com todos os aspetos negativos daí decorrentes.

O conceito de “paciente”, que em boa verdade mantém alguma proximidade com o de “doente” (já que o substantivo inglês “patient” tanto pode ser traduzido como “paciente” ou como “doente”), poderá ser uma tentativa de equilíbrio, se reconhecermos (na forma de adjetivo) que de facto qualquer processo de mudança é complexo e moroso, para o qual é necessária muita paciência e persistência do sujeito.

Por esta razão e a par de todas as críticas que possam ser feitas (pois como vimos o tema nem sempre é consensual), pessoalmente utilizo com regularidade o termo “paciente” para me referir a qualquer pessoa com a qual os/as psicólogos/as clínicos/as exerçam atividades no âmbito dos seus papéis profissionais. Com esta opção refuto a visão (a) da psicologia enquanto uma forma de tratar (exclusivamente) doenças mentais; (b) da relação terapêutica como uma relação comercial (customer) e (c) privilegio a visão humanística que reconhece no utilizador um papel ativo e fundamental para todo o processo.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s