O que é a Depressão?

depressao

A depressão é uma realidade que afeta cada vez mais a população (Vallejo-Nágera, 2002; Widlöcher, 1995). A maioria das famílias as nossa sociedade já contactou, contacta ou virá a contactar com um ou mais casos de pessoas deprimidas. Sendo assim, o que será que as pessoas pensam sobre a depressão? Para o estudo conceção de depressão, parece possível destacar três dimensões: Conceptual – relacionada com o conceito – Causal – etiologia/causas da depressão – e  Procedimental – procedimentos a adotar face à depressão.

Para a doença, em sentido lato, já foram realizados alguns estudos que permitiram a extração de algumas categorias relativas à conceção leiga de doença, parecendo indicar diferenças nas variáveis sexo e idade dos sujeitos (Reis, 1998). No domínio da depressão não foram encontradas referências literárias, pretendendo-se com o presente estudo – cujas pretensões não podem ir além do carácter exploratório – dar um contributo, quiçá pioneiro, nesta área.

Para estudar a conceção de depressão construiu-se um questionário, ao qual responderam 80 sujeitos, obtidos a partir de uma amostra inicial de 300 indivíduos, construída a partir de um critério de acessibilidade.  A presente metodologia apresenta algumas semelhanças à utilizada por Fradique, Canaipa, André, Bernardes & Carreteiro (2001).  A partir da análise das respostas, verificou-se que a depressão parece sobretudo ser encarada como um estado de abatimento e tristeza, caracterizado pela solidão e isolamento, que se deve essencialmente ao stress do dia-a-dia que pode ser minimizado pelo recurso a um técnico de saúde (e.g. psicólogo, já que o uso da medicação parece ser encarado com algumas reticências).

A globalidade dos sujeitos parece discordar completamente que a depressão seja a ausência de saúde ou uma mera anomalia do organismo, consequência do destino e passível de tratar através da astrologia ou de poderes sobrenaturais. No que concerne à dicotomia doença vs. estado (Schwartz & Schwartz, 1993), verifica-se que a maioria dos sujeitos apresenta a depressão como um estado e raramente como doença.

Tal como nos estudos acerca da conceção de saúde e de doença realizados por Blaxter (cit in reis, 1998) e Herzlich (cit in Reis, 1998), verificou-se que ao longo das três dimensões consideradas, as respostas geralmente não se baseiam numa única categoria, sendo antes multicategoriais. Considerando o sexo dos respondentes, as mulheres tendem concordar mais facilmente que a depressão seja “aquilo que o médico/psicólogo diz que é” (α =.001), devendo-se a “uma alteração do funcionamento neurológico do cérebro” (α =.04), ou ao excesso de trabalho/falta de tempos livres” (α =.05), e mostrando uma maior recetividade para as medicinas alternativas (α =.04) e psicoterapia (α =.05).

No que concerne à idade, os resultados parecem sugerir uma maior tendência em concordar que a depressão signifique perda de autonomia (α =.05) proporcional à idade, sendo igualmente os idosos quem mais facilmente associa a depressão ao não cumprimento dos cuidados médicos. Assistem-se ainda a algumas diferenças (α =.01) quanto ao admitir recorrer ao médico de família, que parece obter o apoio dos indivíduos com idade compreendida entre os 45-59 anos, mas alguma discórdia dos indivíduos mais jovens (15-29 anos).

Quando consideradas as habilitações, verifica-se que os indivíduos com uma escolaridade inferior ao 9º ano tendem a concordar mais facilmente que a depressão signifique perda de autonomia (α =.03), o mesmo acontecendo com a ideia de que a depressão “é o que o médico/psicólogo diz que é”, ou da depressão como algo de base neurológica, que tendem a  perder apoio com o aumento da escolaridade (α = .01).

Quanto ao recorrer ao médico de família face a uma situação de depressão, verificam-se novamente alguma diferenças, parecendo os indivíduos com menores habilitações concordar mais com esta forma de ação quando comparados com os indivíduos com uma escolaridade superior, Uma vez considerada a área de formação, observa-se que os sujeitos com formação na área das ciências tendem mais a considerar a depressão como uma anomalia do organismo, seguidos pelos sujeitos da área da saúde, sendo os indivíduos com formação em letras os que parecem concordar menos com esta afirmação.

Quando a depressão é encarada sob o prisma da culpabilização ou baixa autoestima, o apoio parece sobretudo surgir por parte dois sujeitos com formação na área da saúde e minoritariamente pelos sujeitos com formação em letras. O recurso à psicoterapia como forma de resolução da situação de depressão tende a ser defendido sobretudo pelos indivíduos da área da saúde. Face a estes resultados, parece ser de concluir que diferentes sujeitos diferem entre si quanto á conceção de depressão, parecendo o género (m/f), idade, grau de habilitações e área da formação académica, ser fatores a considerar.. Só por si, este especto parece defender a pertinência das investigações dentro desta área, bem como um maior investimento no estudo daquela que muitos afirmam ser a perturbação da sociedade actual.

Referências:

  • Fradique, F, Canaipa, R., André, M.J., Bernardes, D., Carreteiro, R. (2001). Representações cognitivas acerca do cancro da mama: Estudo exploratório em mulheres com diferentes formações e carreiras profissionais. Encontro Internacional “Percursos no feminino: saúde e Psicopatologia da Mulher”. Porto.
  • Reis, J.C. (1998). O Sorriso de Hipócrates: A integração biopsicossocial dos processos de saúde e doença. Lisboa: Vega.
  • Schwartz, A. & Schwartz, R.M. (1993). Depression Theories and Treatments: Psychological, Biological and Social Perspectives. New York: The Guilford Press.
  • Vallejo-Nágera, J. (2002). A Depressão – Como lidar com a doença do nosso tempo. Lisboa: Principia.
  • Widlöcher, D. (1995). As lógicas da Depressão. Lisboa: Climepsi Editores.

Estudo de setembro de 2002

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